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terça-feira, 1 de agosto de 2017

"Sincero", Jürgen Schmieder


Autor(a): Jürgen Schmieder
ISBN: 9788576861300
Páginas: 292
Editora: Verus


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A ideia de ser radicalmente sincero com todas as pessoas e em qualquer que sejam as circunstâncias é um pouco assustadora. Um pouco não, é muito assustadora. Em casos onde Jim Carrey quem atua como a "metralhadora de verdades" as coisas pedem até parecer divertidas - como é o caso do filme Liar Liar (O mentiroso, no Brasil) -, e realmente são. Mas quando se trata de vida real as coisas podem alcançar proporções inimagináveis e situações um tanto quanto complicadas. Foi isso o que me chamou a atenção em Sincero. Sendo esse livro o fruto de um experimento real, com uma proposta ousada e corajosa, eu decidi embarcar na viagem do autor/personagem e saber como o Jürgen Schmieder lidaria com os desafios que essa empreitada lhe traria.

Bom, vamos do começo: Jürgen Schmieder é jornalista e em uma de suas reuniões de pauta com os demais membros da sua equipe de trabalho surge a ideia de um experimento: um determinado indivíduo teria que passar um tempo sendo apenas sincero, zero mentiras. A proposta logo foi descartada pelos demais, mas Schmieder achou que dali poderiam sair boas experiências. Decidiu arriscar e sua meta seria passar 40 dias sem mentir. Até aí tudo bem. Curti. Estava ansioso pra descobrir no que isso iria dar, pois já tinha algumas desconfianças. Imagine só, falar a verdade em absolutamente tudo! Entenda que não sou um defensor da mentira, mas acontece que aceito que ela as vezes é necessária. As pessoas vivem esbanjando o discurso de que não querem nada além da sua sinceridade, sem nem parar pra pensar o quanto ela pode ser perigosa ou desastrosa. Alguns simplesmente não estão preparados e não pensam bem antes de reivindicá-la. Desconfortos sociais (dizendo o mínimo) podem ser evitados por uma simples omissão da sinceridade.

Acontece que durante grande parte do tempo em que o autor viveu essa filosofia, para minha decepção as coisas não pareciam estar tomando um rumo interessante. Sobre sua narrativa, quando percebi Jürgen Schmieder divagava em meio a assuntos aleatórios que em pequenas doses poderiam servir como bons motes introdutórios, mas em excesso se tornou algo absolutamente maçante e desgastante. Ele pareceu usar o livro como oportunidade para escrever do que ele aparentemente sempre teve vontade de falar, mesmo que isso não tivesse nenhuma relação direta com o projeto em si como, por exemplo, passar quase um capítulo inteiro falando sobre pôquer. Apenas divagações.

Sobre seu comportamento, aí sim, posso dizer que fiquei fortemente incomodado. Em determinado momento da leitura me peguei achando impensável que uma pessoa com 29 anos vividos não tivesse o menor senso de como lidar com outras pessoas. Não falo de situações de explosões esporádicas, mas de um comportamento infantil irritantemente persistente. Ele simplesmente vomitava sua sinceridade grotescamente no prato de outras pessoas sem o menor controle. Sob o pretexto de ser sincero inclusive com suas emoções, deixando-as sair quando elas bem quisessem, ele descarregava seus desgostos em cima de quem estivesse à frente, às vezes literalmente:

"Seus molengas desgraçados! Abram caminho para quem tem pressa! Vocês enchem meu saco com essa lerdeza! Tem gente que não tem todo o tempo do mundo, caramba!"

Em um determinado momento, o livro passou a parecer um amontoado de desabafos importunos.

Sincero começou a funcionar melhor pra mim lá por volta dos 70% lidos. Não sei se por causa de algumas mudanças comportamentais do autor, ou se porque eu passei a consumir ele em pequenas doses: lia um capítulo, ia fazer alguma coisa deferente; lia o capítulo seguinte, ia fazer outra coisa...

É importante salientar que se você consegue ignorar o carinha chato e os assuntos paralelos, a obra nos propõe boas reflexões sobre questões de convívio, principalmente. É interessante pensar sobre o quanto as pessoas estão despreparadas para a sinceridade nua e crua; estudar a mentira de forma menos vilanesca - vale ou não a pena usá-la, e em que momentos?. O que é sinceridade? São algumas questões acertadamente abordadas neste livro. Dou-lhe crédito por isso, Schmieder. Fui devidamente incitado a parar pra pensar de forma mais atenta em assuntos que antes me passavam despercebidos, na maioria das vezes. Mas também descobri que não quero conhecer esse cara, que por acaso é também autor do livro. Extremamente desagradável.


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