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terça-feira, 17 de maio de 2016

"Um reflexo na escuridão", Philip K. Dick


Autor(a): Philip K. Dick
ISBN: 9780547572178
Páginas: 289
Editora: Aleph
Ano: 2016

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Ler Philip K. Dick, pra mim, é nunca saber exatamente com o que vou me deparar. Esta foi minha segunda experiência com o autor, e posso dizer que foi diferente da primeira, mais instigante por me fazer querer entender mais das sensações dos personagens; me fazendo entrar um pouco mais nas descrições do autor sobre as alucinações e delírios vivenciados por eles.

Bob Arctor/Fred são duas pessoas em uma. É o que podemos chamar de agente duplo. A sociedade está de uma forma que, para investigar os cartéis de drogas, nem os próprios policiais sabem quem são os agentes que estão investigando. Eles reportam aos seus superiores usando um traje borrador que camufla sua verdadeira identidade.

Fred é chamado para investigar um grupo de criminosos para descobrir a origem da Substância D. Uma droga capaz de lesar o corpo caloso do cérebro separando os dois hemisférios e causando danos que podem ser irreversíveis. Como Fred está infiltrado nesse grupo, ele se sente coagido a também consumir essa droga, dentre outras usadas, para entrar ainda mais em seu disfarce; o que o pode levar à graves problemas.

Mais do que nos preocuparmos com a investigação em si, o consumo desenfreado e as consequências disso é o que mais salta na narrativa de Dick. Diálogos sem sentido aparente, que fazem completo sentido aos personagens e alucinações e delírios muito bem descritos, e por vezes agoniantes, são pontos que me chamaram muito atenção na escrita do autor. Se você se permitir, é possível se aproximar um pouco à vivência dessas sensações - isso foi um dos exercícios que mais me prendeu ao livro: refletir o quão tênue é a linha entre o real e imaginário e tentar me imaginar vivenciando aquilo que o personagem está sentindo.


"- Imagine ser senciente, mas sem estar vivo. Enxergar e até mesmo saber, mas sem estar vivo. Só olhando para fora. Reconhecendo as coisas, mas sem estar vivo. Uma pessoa pode morrer e continuar assim. Às vezes, aquilo que está te olhando através dos olhos de uma pessoa pode ter morrido lá atrás, na infância. O que está morto ali dentro ainda olha para fora. Não é apenas o corpo olhando para você sem nada dentro; ainda tem alguma coisa ali, mas essa coisa morreu e fica só olhando; não consegue parar de olhar." (pg.281)

Volta e meia, quando me pegava pensando no limiar da razão provocado pela Substância D, também me pegava pensando sobre identidade. Dick nos leva a refletir quem são esses usuários, os eus de antes e os de agora são a mesma pessoa? O olhar que caem sobre eles determinam quem eles são? E seus próprios olhares, como ficam? Dick, numa nota após o fim da história, comenta que ele não buscou uma moral para sua narrativa. A maneira que ele nos descreve os acontecimentos, pra mim, deixou muito aberto à nossa imaginação olhar para aquilo livremente, com nossos próprios conceitos e preconceitos. 

A escrita do autor é fluida e acessível, diferente do que alguém que nunca leu o autor poderia pensar por ele ser considerado um clássico da ficção científica. De um modo geral a premissa da história é simples, mas as descrições que comentei vale muito a leitura.



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