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terça-feira, 28 de julho de 2015

"A Arte de Pedir", Amanda Palmer

Autor(a): Amanda Palmer
Páginas: 304
ISBN: 9788580576894
Editora: Intrínseca

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Sem me mexer.
Vinte minutos e nada.
Imóvel.
O único movimento são dos meus olhos. Acompanhando as pessoas que passam ao meu redor.
Sinto tudo.
O sol sob a minha pele. Meus músculos pedindo movimento. Sinto todo o meu corpo. Tenho consciência de toda a tensão; cada gota de suor; das pessoas em volta.
Alguém se aproxima. Se abaixa. Coloca dinheiro no meu chapéu.
Estou livre.
Meu corpo dança. Minha mão escolhe uma flor da minha cesta. Meus olhos caminham da flor ao olhar à minha frente.
Meus olhos sorriem de gratidão.
Seus olhos sorriem por me libertar.
A flor passa de mãos.
Um momento íntimo é compartilhado. O qual sou extremamente agradecido.
O olho se vai. A mão que pegou a flor se vai.
Volto à imobilidade esperando por outro momento. Por outro olhar.

Este momento não mais pertence apenas à Amanda Palmer, vivenciado por ela na praça Harvard, quando trabalhou como estátua viva, o que ela conta em seu livro, A Arte de Pedir. Este momento também é meu. Li em seu livro, vi sua palestra do TED Talk, senti esse momento como se fosse na minha própria pele, assimilei o que ela passou, transcrevi em minhas próprias palavras. Me vi sendo a estátua.


Questionada sobre o porquê do sucesso de seu crowdfunding pelo site do kickstarter, para financiar seu último CD, Theatre is Evil; A Amanda volta em sua história de vida, relembrando como se deu/dá sua relação com as pessoas, dentre essas, o seu público. O que fez aproximadamente 25.000 pessoas pagarem mais de 1 milhão de dólares para que ela pudesse gravar seu álbum? O mais impressionante disso, aponta ela, é que esse número de pessoas, para sua antiga gravadora, era muito pouco para eles lucrarem com as vendas dos CDs dela.

O rememorar da Amanda acaba nos trazendo vivências únicas. Seu tempo trabalhando como estátua viva; como as pessoas encaravam esse trabalho; como ela mesma o encarava; as pessoas que ela conheceu; seus antigos namorados; o início do namoro com o Neil Gaiman (um dos pontos chaves, que a faz refletir muito sobre sua vida e a forma que se relaciona com as coisas); seu vizinho Anthony (seu melhor amigo e porto seguro); sua primeira banda, o The Dresden Dolls; sua atual carreira; e sua comunidade, sua grande e incrível comunidade.
O livro é cheio de contatos singulares e sinceros entre pessoas. Pessoas muito diferentes umas das outras, de lugares muito distantes, mas que se reconhecem como indivíduos possíveis. O que quero dizer com isso, voltando um pouco à ideia da estátua, é que a Amanda nos traz, em sua história, pessoas que são capazes de olhar nos olhos das outras, capazes de reconhecer a existência individual dela, o potencial de ser. Para esse pensamento meu não ficar muito abstrato, assista ao vídeo dela no TED Talk (link) que dá pra ter uma visão geral do que ela vai abordar no livro.

Essa diferença entre as pessoas fica muito evidente numa passagem em que a Amanda está contando sobre como ela estava chateada com o Neil. Ela estava bem doente e ele passou o dia sem falar com ela, apenas a rondando pela casa, lendo seu jornal; perto, mas ao mesmo tempo distante. Isso a deixou muito triste. Em outra ocasião aconteceu a mesma coisa, mas desta vez Amanda resolveu conversar com ele sobre isso. Ele disse que foi assim que foi criado. Que na doença a presença basta, não é pra falar e nem pra chegar muito perto. Amanda contou como havia ficado triste, como ela estava ansiando por contato, por carinho, e ele, o cara que ela ama, estava distante. Ele, então, a pede que o ensine.

Não sei vocês, mas o que esse momento me passou foi como devemos estar atentos as nuances de nossos modos de ser. Somos pessoas que crescemos em várias microculturas e, apesar de nossas intenções serem as mesmas, podemos agir de formas bem diferentes. Estarmos dispostos à olhar para o outro, reconhecer sua existência singular, e construir algo a partir disso... a arte de pedir... de compartilhar.

Momentos e mais momentos como esse, reflexões sobre como o mundo capitalista está perdendo esse contato, é disso trata A Arte de Pedir.


Meu único pedido:

Estenda a mão.
Pegue a flor.
Olhe bem fundo dos olhos dela.
Entre em contato com o que ela têm a te falar.



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