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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Garota Exemplar: um filme para pensar por horas a fio


Filmes que são adaptações de livros que gosto muito sempre me deixam apreensiva. Fico pensando se os roteiristas e o diretor irão conseguir passar todas as nuances da obra original, se os atores conseguirão representar bem os personagens. É sempre um misto de medo de que estraguem o bom trabalho do livro e excitação por finalmente ver uma representação daquilo que você apenas pôde imaginar. Foi assim que estava me sentindo antes de assistir Garota Exemplar.


Logo que após ler o livro da Gillian Flynn foi anunciada a adaptação cinematográfica. Esperei bastante e ao ver o resultado fiquei extremamente satisfeita. Na verdade, fiquei exultante e pretendo assistir o filme novamente, já que coisa boa a gente repete a dose.

O filme conta a história de Nick e Amy Dunne. No dia do aniversário de cinco anos de casamento Nick chega em casa e percebe que a esposa sumiu misteriosamente. É a partir daí que a história começa. Em uma narrativa dividida entre a visão de Nick do seu drama pessoal no presente, tentando explicar toda a situação para a polícia que investiga o desaparecimento, e a narrativa de Amy a partir de um diário contando sobre o passado do casal, o público pode pouco a pouco costurar as tramas e tentar entender o que aconteceu e está acontecendo.

O roteiro da própria autora do livro é um caso raro de um escritor conseguindo fazer um trabalho praticamente impecável ao passar sua obra para o cinema. Gillian consegue criar um roteiro que não precisa da obra original para ser entendido; além de conseguir dosar muito bem o drama e a comédia (na sessão em que eu estava o público pareceu se divertir bastante com as sacadas cômicas do filme) e capturar a todos com suas viradas estratégicas e completamente psicológicas, que fazem o espectador ficar de boca aberta diante das inúmeras surpresas da trama.

É claro que não é apenas o roteiro que faz de Garota Exemplar um filme que merece ser visto. Apesar do grande trabalho da Gillian, David Fincher traz uma direção maravilhosa (o que já era esperado) com seu detalhismo visual, com a maneira que seu montador realiza um trabalho de costura das cenas que é impressionante, com seus cortes bruscos que ajudam a manter a tensão constante do filme. A dobradinha Fincher e Flynn mantém o público cativo até o fim, desejando intensamente saber qual vai ser o final.

Com uma crítica ao circo midiático sensacionalista que se tornou o “jornalismo”, o drama de Amy e Nick dá lugar a uma reflexão sobre a situação da imprensa mundial que explora qualquer coisa em busca de um aumento de audiência.

O filme discute também o casamento. O que é um casamento? Quais os motivos para se casar e manter o relacionamento por anos a fio? O que une duas pessoas por toda a vida? O que importa não é chegar a uma resposta, mas nos fazer pensar.

E o que falar dos atores? Confesso que quando o Ben Affleck e Rosamund Pike foram escolhidos para interpretar o casal de protagonistas fiquei sem uma opinião formada. Ao terminar de ver Garota Exemplar só posso dizer que foram boas escolhas. Ben é competente em sua interpretação do perdido Nick Dunne. Conseguimos perceber sua inadequação àquela situação, até o momento que o personagem percebe a realidade do que está acontecendo. Provavelmente a melhor interpretação do ator, que se entrega completamente ao papel. Rosamund Pike dá vida a uma Amy que não poderia ser feita por mais ninguém. Ela é a completa personificação da personagem criada pela autora do livro. Fincher dirige os atores de maneira hábil e extrai um resultado que agrada até os mais chatos.


Provavelmente o filme do David Fincher que tem o maior nível de cinismo, que questiona uma das maiores instituições da sociedade e o jornalismo atual. Uma história que não tem pretensões de deixar o público feliz, mas não pretende deixar ninguém triste. Garota Exemplar pretende mesmo te deixar pensando na história por horas e horas a fio. E consegue.


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